PARA SORVER MOMENTOS DE FELICIDADE, DEMORE-SE.
Fui desafiado a escrever sobre o tema felicidade e, de pronto, elaborei um questionamento: é possível descrever com rigor o que é felicidade? Obviamente, a resposta será, não. Felicidade é um conceito carregado de subjetividades. Os antigos gregos, por exemplo, empregavam o vocábulo "eudaimonia"; "Eu", que significa "bom" e "daimon", que significa "demônio". Assim, ser feliz era contar com um "bom demônio", uma boa índole. Numa perspectiva contemporânea, a felicidade depende do modo como lidamos com os nossos próprios demônios, monstros invisíveis, medos e imperfeições. O filósofo Platão na obra clássica “A República” (sobre a justiça), que influenciou toda a História da Filosofia ocidental, apontou que a felicidade só poderia ser alcançada através da justiça e eficácia do “Estado”, que possibilitaria aos cidadãos da pólis o acesso a elementos que os tornariam mais felizes, como a educação. Nesse sentido, a felicidade não estaria ligada a bens materiais, mas à justa tomada de consciência em relação à própria existência do indivíduo e ao seu papel na sociedade. Assim, uma ética para a prática da justiça tornaria a felicidade uma realidade possível. De outro modo, a felicidade é efêmera, e a falta desta permite o seu reconhecimento. Noutro viés, em sua obra mais célebre, “O mal-estar na civilização”, Freud procurou encontrar as causas mais prováveis da infelicidade. E, é possível afirmar que, para ele, o mal-estar é causado pelas fissuras no projeto de civilização e a sua ambivalência. Assim, a felicidade depende de como lidamos com este mal-estar, por meio de um “projeto de vida”. Isto posto, a felicidade pode decorrer de uma rotina de zelo e da atenção, dentro de uma esfera de vinculação intrapessoal e interpessoal (relacionamentos). Pois que, segundo Freud, o nosso desconforto decorre de três fontes: a prepotência da natureza, a fragilidade de nosso corpo e a deficiência das disposições que regulam os relacionamentos na família, no Estado e na sociedade. Esta última parte ligada ao mal-estar na civilização. Entretanto, caros leitores, neste curto espaço eu não tenho a pretensão de aprofundar o presente tema, sobretudo, simplificar o complexo pensamento de Freud. No entanto, gostaria de apontar algumas percepções. Primeiro, acredito que, hoje em dia, a felicidade resulta do entendimento de que não é necessário ter uma opinião sobre tudo. Ainda, estou convencido de que a felicidade está profundamente ligada à demora, isto em duas perspectivas: no que Freud considerou uma “estetização da existência” – ler sem pressa a vida como uma obra de arte – ou no que o filósofo Byung-Chul Han chamou de “o tempo do outro”. Por conseguinte, a demora em ser presença e a demora em ser envolvido, numa relação de alteridade. Penso que estes modelos requerem longos momentos de atenção e serenidade “off-line”, assim sendo, considerando a ambivalência da civilização e da modernidade discorrida por Freud. Para concluir, reporto-me ao que Jorge Luis Borges escreveu sobre a felicidade. Segundo o argentino, buscar a serenidade seria mais razoável do que buscar a felicidade. E, talvez, a serenidade seja uma forma de felicidade. Portanto, para sorver momentos de felicidade, procure a serenidade e demore-se numa relação de alteridade.
Prof.º Dr. Jeremyas Machado Silva
Faculdades Integradas Machado de Assis/FEMA